O que é totemismo? O conceito de totem na sociologia

O que é totemismo? O conceito de totem na sociologia

“Totemismo” é um conceito frequentemente encontrado no estudo das religiões primordiais. Então, o que é o totemismo e quando ele se originou? Como o totemismo moldou as visões de mundo das comunidades indígenas?

O que é totem?

Um “totem” é um símbolo ou objeto que representa um grupo de pessoas, como uma família, tribo ou comunidade. Em muitas culturas indígenas, pode assumir a forma de um animal, planta ou objeto de significado espiritual. Acredita-se que esse conceito de totem tenha se originado desde os tempos antigos, quando as pessoas começaram a formar comunidades e desenvolver um senso de identidade.

Em muitas culturas indígenas, os totens são considerados sagrados e usados em cerimônias e rituais para expressar o caráter e o espírito únicos de cada tribo. Eles servem como um lembrete das crenças, valores, costumes e identidade das pessoas.

O que é Totemismo? O conceito de totem na sociologia
Os totens são artefatos decorados com figuras esculpidas, como animais, humanos e seres sobrenaturais, que representam a linhagem familiar, o clã ou a história da comunidade que os criou. (Localização: Vancouver, Canadá)

O significado do totem nas sociedades contemporâneas

Nas sociedades contemporâneas, o significado de totem foi adaptado e reinterpretado de várias maneiras. Para alguns, tornou-se um símbolo de identidade ou afiliação a um determinado grupo ou subcultura. Por exemplo, as equipes esportivas costumam ter mascotes ou símbolos que representam seu espírito e identidade de equipe, o que pode ser visto como uma forma de totemismo moderno.

Na cultura popular, os totens também foram descritos como objetos mágicos ou sobrenaturais com poderes místicos, como no universo da Marvel Comics, onde personagens como Wolverine têm totens animalescos que lhes dão suas habilidades.

Em algumas práticas espirituais contemporâneas, os totens são usados como uma ferramenta para crescimento pessoal e autoconsciência. Isso pode envolver o trabalho com totens específicos que representam diferentes qualidades ou aspectos de si mesmo e usá-los como um guia para o desenvolvimento pessoal.

Significado do totemismo na sociologia

Na sociologia, o totemismo refere-se a um sistema de crenças no qual os membros de um determinado grupo social ou tribo consideram um objeto, animal ou planta como sagrado e um símbolo de sua identidade.

O significado do totemismo na sociologia é frequentemente discutido em termos das teorias apresentadas pelo sociólogo francês Émile Durkheim. Durkheim argumentou que o totemismo era uma forma de adoração coletiva que servia para reforçar a coesão social e a solidariedade. De acordo com Durkheim, o totem era uma representação da identidade, valores e crenças compartilhadas do grupo ou clã. Ao adorar o totem, os membros do grupo poderiam reafirmar sua conexão uns com os outros e com a sociedade em geral.1

Outra importante teoria do totemismo na sociologia foi proposta pelo antropólogo britânico Sir James Frazer. Frazer argumentou que o totemismo estava enraizado na magia primitiva e que o totem representava uma forma de magia simpática. Segundo Frazer, acreditava-se que o totem tinha poderes mágicos que poderiam ser usados para trazer boa sorte, fertilidade e proteção ao grupo. Nessa visão, o totem não era apenas um símbolo da identidade do grupo, mas uma fonte de poder e controle sobre o mundo natural.2

Além das teorias de Durkheim e Frazer, houve muitas outras interpretações do totemismo na sociologia. Alguns estudiosos argumentam que o totemismo é uma forma de se relacionar com o mundo natural e que reflete uma profunda reverência pelo meio ambiente. Outros veem o totemismo como uma forma de adoração aos ancestrais ou como uma forma de honrar os espíritos dos mortos. Outros ainda veem o totemismo como um meio de regular o comportamento social e manter a ordem social dentro do grupo.

Origens do totemismo

Não há consenso sobre quando surgiu o totemismo, mas existem várias teorias nos campos da sociologia e da antropologia que tentam explicar as origens do totemismo.

Quando surgiu o totemismo?
Embora não se saiba quando apareceu pela primeira vez, alguns pesquisadores acreditam que o totemismo foi praticado em sociedades primitivas de caçadores-coletores desde o Paleolítico.3

Uma teoria sugere que o totemismo se originou como uma forma de identificar e distinguir diferentes grupos sociais. Na era paleolítica, as pessoas podem ter se identificado com animais específicos, que se tornariam seus totens. Essa identificação serviria como um meio de distinguir um grupo de outro, bem como criar um senso de unidade dentro de um determinado grupo.

Outra teoria sugere que o totemismo nasceu da necessidade de explicar a natureza. Nessa visão, o animal ou planta totêmica era visto como um símbolo da natureza, e as pessoas teriam desenvolvido histórias e mitos em torno de seus totens para explicar os fenômenos naturais que observavam.

Uma terceira teoria propõe que o totemismo se desenvolveu como uma forma de administrar recursos. Nessa visão, diferentes grupos se identificariam com diferentes totens, que por sua vez serviriam como meio de regular o acesso a determinados recursos. Por exemplo, um grupo que se identificou com um determinado animal pode ter tido acesso especial às áreas de caça onde aquele animal foi encontrado.

Totemismo nas culturas indígenas

O totemismo é parte integrante de muitas culturas indígenas, representando as profundas conexões espirituais e culturais entre essas comunidades e a natureza. O totem de um indivíduo geralmente é determinado por sua família ou clã e serve como um poderoso símbolo de sua conexão com seus ancestrais e com a comunidade em geral. Acredita-se também que o totem tenha um poder espiritual único que pode ser invocado para orientação, força ou proteção quando necessário. Essa ligação do indivíduo com seu totem é considerada sagrada e é vista como uma manifestação de seu vínculo com seus ancestrais.4

Além de seu significado espiritual, o totemismo também é usado como forma de identificar e distinguir diferentes grupos dentro de uma comunidade. Por exemplo, em algumas culturas indígenas australianas, o grupo totêmico de um indivíduo é determinado por seu local de nascimento e ancestralidade e é frequentemente associado a um animal ou planta específico. Acredita-se que esses grupos totêmicos compartilhem o poder espiritual e a energia de seus totens, reforçando a importância desses símbolos sagrados dentro da comunidade.

Postes graves
O povo Tiwi do norte da Austrália conduz a cerimônia Pukamani usando postes graves chamados tutini, que não estão necessariamente ligados ao totemismo. Embora esses postes graves sejam às vezes comparados a totens “postes, seu propósito é ajudar os mortos em sua jornada para o reino espiritual. Dessa forma, o tutini funciona como um guia para as almas dos falecidos.
Foto: Laterthanyouthink (Wikimedia)
©️CC BY-SA 4.0

Totem e identidade cultural

Nas culturas indígenas, o totem é herdado por linhagem familiar. Acredita-se que o totem conecta os indivíduos aos seus ancestrais e os ajuda a entender seu lugar no mundo.

As identidades totêmicas são frequentemente associadas a funções e responsabilidades específicas dentro da tribo ou comunidade. Por exemplo, pessoas pertencentes a um determinado grupo totêmico podem ser responsáveis por realizar certos rituais ou cerimônias, bem como manter e transmitir práticas e tradições culturais. Tais práticas reforçam a importância da identidade totêmica como forma de manter a continuidade cultural e preservar o conhecimento das gerações passadas.

Além disso, os totens desempenham um papel crucial no estabelecimento e reforço da identidade da comunidade. Cada grupo ou tribo totêmica tem seu conjunto distinto de crenças, práticas e tradições que o diferenciam de outros grupos ou tribos dentro da comunidade. Ao se identificar com um totem específico, os indivíduos expressam seu sentimento de pertencimento e solidariedade com sua comunidade, bem como seu orgulho por sua herança cultural.5

Tabu e proibição no totemismo

No contexto do totemismo, tabu e proibição referem-se às restrições culturais e sociais impostas a certos animais, plantas ou objetos considerados sagrados ou significativos por um determinado grupo totêmico. Essas restrições podem assumir várias formas, incluindo restrições alimentares, restrições à caça ou coleta de certos recursos e limitações ao uso de certos objetos ou materiais.6

O tabu e a proibição no totemismo têm várias funções, incluindo o controle social e o reforço da identidade do grupo. Em primeiro lugar, eles ajudam a reforçar a identidade de um grupo totêmico ao estabelecer um conjunto único de crenças, práticas e valores que o distinguem de outros grupos dentro da comunidade maior. Ao aderir às restrições impostas a certos animais ou objetos, os indivíduos dentro de um grupo totêmico afirmam sua pertença a esse grupo e seu compromisso com suas crenças e práticas compartilhadas.

Em segundo lugar, o tabu e a proibição desempenham um papel importante na regulação do comportamento social e na manutenção da ordem dentro de um grupo totêmico. Ao restringir certas atividades ou comportamentos, essas regras ajudam a prevenir conflitos e promover a cooperação entre os membros do grupo. Por exemplo, as restrições alimentares podem prevenir a caça excessiva de uma determinada espécie, garantindo que a comunidade tenha recursos adequados a longo prazo.

Em terceiro lugar, o tabu e a proibição podem ser vistos como uma forma de respeito ao mundo natural e aos espíritos que o habitam. Ao tratar certos animais, plantas ou objetos como sagrados, os indivíduos dentro de um grupo totêmico demonstram sua reverência pelo mundo natural e sua crença em seu poder espiritual.

É importante notar que o tabu e a proibição podem variar amplamente entre diferentes grupos totêmicos e podem mudar ao longo do tempo conforme as condições sociais e ambientais mudam. No entanto, apesar dessas variações, as funções subjacentes do tabu e da proibição no totemismo permanecem basicamente as mesmas, servindo para reforçar a identidade do grupo, regular o comportamento social e promover o respeito pelo mundo natural.

As crenças espirituais no totemismo

No centro do totemismo estão as crenças espirituais associadas aos totens, que são considerados símbolos sagrados que representam a identidade espiritual de um grupo ou indivíduo.

Uma das crenças espirituais mais proeminentes no totemismo é o conceito de reencarnação. De acordo com essa crença, os espíritos dos ancestrais renascem em novos corpos, muitas vezes dentro do mesmo grupo totêmico ou clã. Essa ideia de reencarnação reforça a importância das conexões ancestrais e a continuidade das tradições e práticas culturais. Acredita-se também que o espírito do animal representado por um totem pode renascer em humanos, e que os humanos podem atingir um nível mais elevado de espiritualidade incorporando as características de seu animal totêmico.

Outra crença espiritual importante no totemismo é a ideia de animismo. Essa crença está intimamente ligada ao conceito de totem, pois os animais totêmicos são vistos como manifestações dos espíritos do mundo natural.7

Além dessas crenças espirituais, o totemismo também é frequentemente associado a estruturas sociais e dinâmicas de poder dentro das comunidades. Por exemplo, em algumas sociedades totêmicas, os indivíduos são identificados por seu totem e só podem se casar dentro de seu grupo totêmico. Isso cria um senso de coesão social e reforça a importância da identidade totêmica como forma de manter a continuidade cultural e preservar o conhecimento das gerações passadas.

  1. “The Elementary Forms of Religious Life”, Émile DURKHEIM, Oxford University Press, ISBN: 9780199540129[]
  2. “The Golden Bough: A Study of Magic and Religion”, James George FRAZER, Suzeteo Enterprises, ISBN: 9781645940210[]
  3. “Totemism of the Peoples of Altai Origin”, Kuljamal Tologonovna DJAMANKULOVA, Religion and State in the Altaic World, De Gruyter, 2022. 59-64[]
  4. “Beyond Nature and Culture”, Philippe DESCOLA, University of Chicago Press, ISBN: 9780226144450[]
  5. “Primitive Mentality”, Lucien LÉVY-BRUHL, Alpha Editions, 978-9354151521[]
  6. “Culture and Communication: The Logic by which Symbols Are Connected”, Edmund LEACH, Cambridge University Press, ISBN: 9780521290524[]
  7. Animal Animism: Evolutionary Roots of Religious Behavior” Stewart GUTHRIE, 2002[]
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